Duas etnias de origem tupi: Awá-Guajá e Guarani-Kaiowá

Awá-Guajá

Formado por pouco mais de 360 pessoas habitando três terras indígenas no noroeste do Maranhão, nas bacias dos rios Pindaré e Gurupi, num total de 820 mil hectares, esse povo de língua da família tupi-guarani é conhecido como um dos mais ameaçados do país – ou do mundo, como afirmou recente campanha destinada a divulgar sua causa.[1]

Parte da população Awá-Guajá encontra-se em situação de isolamento voluntário – inclusive transitando por outras terras indígenas da região que pertencem a povos distintos (Tembé, Ka’apor, Guajajara) –, e mesmo os que mantêm contato permanente com os brancos conhecem pouco da língua portuguesa. Some-se a essas dificuldades o fato de que, para manter seu modo de vida como caçadores, os Awá-Guajá dependem da manutenção de um território com a floresta conservada.

Vivendo em uma região de confluência entre o avanço do agronegócio e da mineração, as pressões da indústria madeireira ilegal e os fluxos migratórios oriundos das pobres cidades do interior do Nordeste, os Awá-Guajá foram contatados, nos anos 80 do século passado, justamente a partir da expansão do Projeto Carajás na região. Até hoje, esse processo continua e, periodicamente, grupos de indígenas juntam-se aos Guajá aldeados ou voltam para a mata, afastando-se deles. Um dos fatores que têm levado à aproximação dos grupos isolados é o medo de ataques dos madeireiros clandestinos.[2]

Guarani-Kaiowá

Considerados hoje como o segundo maior grupo indígena do país, com quase 50 mil pessoas, os Guarani-Kaiowá são formados pela fusão de dois grupos falantes do guarani, os Kaiowá e os Guarani, que utilizam o dialeto nhandeva. A partir do confinamento promovido pelo Estado brasileiro ao longo do século XX, Kaiowá e Guarani passaram a dividir as pequenas reservas criadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) entre 1915 e 1928. Hoje, há um grande número de casamentos interétnicos e uma aliança política consolidada por meio do movimento Aty Guasu – Grande Assembleia Kaiowá e Guarani. Ambos os grupos não se restringem ao território brasileiro. No Paraguai, são conhecidos, respectivamente, como Pai-Tavyterã e Chiripá, ou Avá-Katu-Eté.

Em função do atraso nas demarcações de terra para o grupo, devido à forte pressão política do agronegócio e dos políticos de MS, os Kaiowá e Guarani passam, nas últimas décadas, por uma difícil situação social: são centenas de assassinatos e suicídios todos os anos, principalmente entre os jovens. Atualmente, muitas das famílias Kaiowá e Guarani sobrevivem, principalmente, de benefícios sociais e cestas de alimentos doadas pelo governo. Quando a assistência social falha, sobrevêm rapidamente a fome e a desnutrição, principalmente das crianças. Diante da total impossibilidade de constituir uma vida digna nas antigas reservas, os Kaiowá e Guarani organizam, desde os anos 80, um dos mais persistentes movimentos de luta pela terra no país. Atualmente, são mais de 30 acampamentos reivindicando a demarcação dos chamados tekoha – “o lugar onde se pode viver do nosso jeito”.

Os grupos Guarani da bacia do Rio da Prata – formada pelos rios Paraná e Paraguai – mantiveram contato com os europeus desde o início da colonização espanhola, no século XVI. As densas matas da região sul de Mato Grosso do Sul ainda abrigaram muitos indígenas de língua guarani que preferiram manter-se distantes dos brancos até o século XIX, quando a Guerra do Paraguai atingiu em cheio o território por eles habitado. Esses Guarani que preferiam manter-se vivendo na mata a aproximar-se dos colonos ou missionários eram chamados, no período colonial, de caagua, ou ka’agua (habitantes do mato), denominação genérica que é, possivelmente, a origem do etnônimo kaiowá.

Ao longo da história, os grupos de língua guarani receberam, em nível local e regional, diversas denominações. Atualmente, no Brasil, considera-se a existência de três distintos grupos, ou parcialidades, falantes de três variantes ou dialetos do guarani: Kaiowá, Nhandeva ou Avá-Guarani e Mbya. Considerando-se esse conjunto, os Guarani são o maior grupo indígena do país, com 67,5 mil pessoas, segundo o Censo de 2010.

Os estados brasileiros que registram presença Guarani são: Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará e Tocantins. Além do Brasil, os grupos Guarani estão presentes no Paraguai, Argentina e Bolívia.

Referências

CIMI MARANHÃO. Ameaçados, Awá Guajá isolados aceitam contato no Maranhão. Notícias Conselho Indigenista Missionário, São Luís, 9 jan 2015. Disponível em: <http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&action=read&id=7946>. Acesso em: 7 maio 2015.

[1] Ver Awá – Survival International. Disponível em: <http://www.survivalinternational.org/pt/awa>

[2] CIMI MARANHÃO. Ameaçados, Awá Guajá isolados aceitam contato no Maranhão. Disponível em: < http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&action=read&id=7946>.